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O desvelar de um sonho

“Sou ignóbil, ignóbil, ignóbil! Acreditei durante considerável tempo em minha vida, neste asqueroso ser intangível, mortificando-me todos os dias”. Foram essas as malditas palavras que pronunciei ao me ver enfraquecido diante da medonha idéia do ser supremo. Solapado de crendices tradicionais, presenciei minha miséria de espírito e fui capaz de ser covarde face as minhas incertezas. Foi um preciso sonho que me desvelou a inutilidade da existência divina e sua cruel realidade distinta. Ao me deitar depois de um dia cansativo e insípido, fechei meus olhos e dei início a minha prece. Numa seqüência habitual parti do pai nosso, e logo estava empreendido numa reverência súplica à madre pura e superiora mãe de todos os pecadores. O sono veio como um desmaio e o inconsciente ditou as normas do meu organismo. Tudo era escuridão numa imensidão assombrosa, vozes se entrecortavam sendo impossível distinguir palavras, frases, sílabas, eram no mais ruídos incompreensíveis, porém ruídos humanos....

A perda do viço sobre o mundo e as coisas.

É sempre um equívoco afirmar qualquer coisa que seja de forma convicta. Porém, nem sempre estou disposto em assumir tal postura e me lanço comodamente em paradoxos superficiais que se chocam no cotidiano de maneira categórica. Na ambivalência comportamental que assumo todos os dias, acabo me perdendo em palavras vazias, de algum significado que possa ser substancial, e em pensamentos avulsos que rompem com minha repugnante e estática situação existencial. Não me admiro com minhas mutações repentinas, com os meus desdizeres, nada disso atribuo relevância. Sou mesmo um sujeito confuso, até mesmo em constatar tal característica. Ao ser questionado sobre assuntos que envolvem minha personalidade, minha interpretação do mundo e da vida, procuro, com certa frustração, ordenar as idéias, as palavras, para amenizar esse caos ideário, mas tamanha é minha decepção ao constatar a inutilidade de tais questionamentos, e volto a me reservar. Emitir juízos acerca de tais assuntos será sempre superf...

Elegia Maldita

Incrustável realidade, Que zomba da minha insignificante existência Nas mazelas de uma vida decrépita, Do nascimento até os últimos dias Um escárnio impingido no meu ser. Utiliza-se de minha fragilidade E me lança na desgraça infinita, Recordando-me o Augusto, inócua criatura, No cósmico gozo do verme, do transcendentalismo mistério, Que encravasse no peito de um vencido. De Rimbaud à Mallarmé, Do Artaud à Rabelais, Aspiro em todos estes marginais O profano, descrente e libidinoso Fruto do ventre maldito. Sou esse condenado a viver Que na tormenta dos dias Anda como um zumbir nas noites a se perder Desejando encontrar outrem Com igual desgosto.

Recordações

Uma noite qualquer em mais um instante esmo da vida, momentos que impregnam a memória de recordações prazerosas surgiam. Inesperadamente tudo começa a acontecer com certa intensidade e impulsos, vontades, desejos são objetivados em nossas ações. “Nós humanos exploramos a existência e carregamos conosco suas conseqüências: decepções, revolta, encantamento, prazer, tristeza, tudo isso, completando necessariamente nossa existência”. E naquela noite aparentemente insignificante, a vida ia pouco a pouco se manifestando e envolvendo seres até o momento indiferentes. Recordo-me ainda do gosto de vinho que, entre os seus dedos, fora derramado me induzindo instintivamente a volúpia. Não havia mais receio de querer para si, de efetivar os desejos sobre qualquer circunstancias, aos poucos as coisas iam se construindo, sem permissão, mas com intensa vontade, desrespeitando convenções, estávamos totalmente entrelaçados aos instintos. Não é preciso esforço algum para recordar momentos tão prazeros...

Confissões de um solitário vagabundo II

Noite fria e chuvosa nessa cidade estúpida, se já não bastasse o tédio de estar em casa, não há nenhuma bebida, nem mesmo cigarros, nem ao menos um corpo fácil e barato, para um gozo instantâneo seguido de uma repulsa egoísta e necessária. Desejo a violência de uma vida lançada ao risco, intensa, perdida e só minha. Se eu tivesse ao menos uma bebida que me deixasse alto e iludido, é estranho viver de cara nesse mundo. Toda a indiferença preenche meu corpo, certo horror em ser homem, me faz recordar aquele cínico grego “Diógenes de Sínope”, e sua repugnância à civilidade, a corrupta natureza humana que engendra de forma incessante desigualdades. E essa chuva não para, há três dias que ela assola minhas pretensões, premedito e acabo desistindo. Hoje até meus livros, meus únicos e verdadeiros amigos, não me excitam, eu cansei de discursos, de descrições existenciais e de verdades relativas. Mais um dia que se esvai pelo tempo, e propenso estou a desistir de tentar, de buscar ocupar ou...

Porque falas sobre o amor?

Tudo no amor.....este sentimento mal compreendido, faz ,ou melhor, brinca com as pessoas sem respeito algum. “Mas em que sentido?” Ele é desrespeitoso, não se submete a fragilidade alguma. “Como estas sendo estúpido!” Num sei...vivi talvez, isto seja o mais importante. Percebi o quanto ainda sou ingênuo, ou seria inexperiente? “Você fala como se o amor fosse algo assim tão real.” Deixemos os substantivos de lado, esse sentimento é voraz, na maioria das vezes é dilacerador, mas confesso novamente que vivi, e ainda estou vivendo tudo o quanto ele me impõe. “Você não passa de um idealista mesquinho”, creio que sim em determinados momentos acredito em minhas paixões, prefiro me ferir com todas elas a me resignar com a solidão. “Há num acredito que estas a dizer isto”, somos benevolentes você não acha? Quando tratamos de sermos felizes? “Não, não acredito nisto, tudo é tão efêmero, vazio, tudo passa quando o desejo não é mais o mesmo do inicio” Prefiro ser usado, prefiro servir como objeto....
Desejar o impossível Como uma criança inquieta Num belo ato ingênuo Querer por querer O impossível, o incomum, um incerto desejo. Desejar por não ter Paz, consigo mesmo Ter o que não podes possuir Para sempre, Apenas sente O que não podes possuir, Mas, apenas desejar para si O que é impossível.